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NOTÍCIAS DA ADEPOL-SC

Confira o artigo publicado na coluna semanal da ADEPOL-SC no jornal ND+


  Durante
séculos, a verdade nas investigações criminais era extraída de forma cruel:
arrancada do corpo do suspeito por meio da confissão. A tortura, na prática,
era a principal ferramenta para se chegar à "verdade". Hoje, essa
lógica está ruindo.



  Um novo
paradigma se impõe nas delegacias brasileiras. Escores de risco e correlações
estatísticas — e não mais relatos obtidos sob pressão — orientam as decisões. A
inteligência artificial (IA) está reorganizando, em silêncio, a maneira como se
investiga, se coleta prova e se busca justiça.



  Essa
transformação tem raízes profundas e uma ruptura importante ocorreu com a
expansão das investigações financeiras e dos crimes de maior complexidade.
Diante de agentes economicamente poderosos e pouco acessíveis às técnicas
investigativas tradicionais, os investigadores tiveram que inovar e superar as
máximas da velha escola - follow the money (siga o dinheiro)
e cherchez la femme (procure a mulher). A era digital
consolidou a virada e a investigação, antes artesanal, tornou-se sistêmica.



   Agora, a IA
embrionária acelera tudo. Algoritmos detectam anomalias financeiras. Visão
computacional varre rostos em câmeras. Grafos digitais mapeiam conexões
ocultas. O investigador não pergunta mais "Quem fez?", mas sim
"Que padrão anômalo merece atenção?". O centro de gravidade da
investigação começa a se deslocar do depoimento isolado para o cruzamento de
grandes volumes de dados.



  No entanto,
essas ferramentas são facas de dois gumes. Elas correm o sério risco de
automatizar vieses históricos. Se o algoritmo é treinado com dados de
ocorrências passadas — que já refletem seletividade social — ele reproduz o
preconceito em alta velocidade. O sistema vira uma profecia autorrealizável:
prende-se mais onde já se prendeu demais. Na prática, a pobreza e a cor negra
seguem na linha de tiro, enquanto o colarinho branco permanece blindado.



   O Brasil está
na encruzilhada. A questão central é: eles vão ajudar a quebrar a impunidade
dos poderosos ou vão apenas automatizar a repressão contra os mais frágeis? A
legitimidade dessa transformação deverá ser medida pela existência de controle,
transparência e critérios investigativos capazes de impedir que a inteligência
artificial reproduza a seletividade que deveria ajudar a superar.



    Nesse novo
cenário, o policial civil deixa de ser o investigador solitário para se tornar
um gestor de fluxos automatizados. Mas não basta lhe entregar um computador
potente: é necessário oferecer condições institucionais e independência para
que a tecnologia também alcance os grandes tubarões. No fim das contas, por
mais sofisticados que sejam os algoritmos, o fator decisivo continuará sendo
humano: caberá ao investigador transformar correlações em hipóteses, dados em
provas e tecnologia em instrumento de justiça criminal.